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PSOL elegeu menos deputados que PT em SP apesar de mais votos

PSOL elegeu menos deputados que PT em SP apesar de mais votos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A votação expressiva do PSOL não garantiu mais cadeiras na Câmara

A eleição proporcional é um sistema que pode gerar resultados surpreendentes para eleitores menos familiarizados com suas regras. No pleito de 2024, em São Paulo, o PSOL conquistou aproximadamente 3 milhões de votos totais, superando a coligação do PT, PCdoB e PV que recebeu 2,5 milhões de votos. Apesar dessa vantagem numérica, o PSOL elegeu apenas seis deputados federais, enquanto sua concorrente conseguiu onze cadeiras. Esse aparente paradoxo revela como funcionam os mecanismos da eleição proporcional no Brasil.

A deputada federal Erika Hilton tornou-se a mais votada da história do país, alcançando impressionantes 1,5 milhões de votos em São Paulo. Sua votação expressiva, embora tenha contribuído para a votação total da federação PSOL-Rede, não foi suficiente para ampliar significativamente a bancada do partido na Câmara Federal. Esse resultado levantou questionamentos entre apoiadores e especialistas sobre as limitações do sistema eleitoral proporcional.

Como funciona a eleição proporcional para deputados

Na eleição proporcional para a Câmara dos Deputados, o voto do eleitor é contabilizado não apenas para o candidato específico, mas também para o partido ou federação ao qual ele pertence. A quantidade total de votos que uma legenda ou coligação recebe determina quantas cadeiras lhe são atribuídas na distribuição inicial. Esse sistema permite que o eleitor vote tanto no número do candidato quanto diretamente na legenda.

Quando um candidato ou candidata recebe votação expressiva, como ocorreu com Erika Hilton, acaba tendo o efeito de "puxar" outros integrantes da mesma chapa. Contudo, para que esses candidatos possam ocupar um mandato, eles precisam atender a requisitos individuais mínimos de votação. Não basta apenas integrar uma federação com votação total elevada; cada parlamentar deve atingir patamares específicos de votos pessoais.

O quociente eleitoral define o piso de votos necessário

O quociente eleitoral é um cálculo matemático realizado pela Justiça Eleitoral que establece o número mínimo de votos que cada candidato precisa obter para ser eleito. A fórmula divide o total de votos válidos da eleição (excluindo brancos, nulos e abstenções) pelo número de vagas em disputa no estado.

Em São Paulo, com 70 cadeiras em disputa na Câmara Federal, o quociente eleitoral ficou em aproximadamente 338 mil votos. Isso significa que cada candidato precisava atingir cerca de 33,8 mil votos para garantir sua eleição, um valor correspondente a 10% do quociente. Essa exigência é fundamental para evitar que candidatos com votação ínfima ocupem cadeiras na Casa.

Da federação PSOL-Rede, apenas seis candidatos ultrapassaram esse piso eleitoral. Além de Erika Hilton com 1,5 milhão de votos, alcançaram a marca Sâmia Bonfim (583 mil votos), Guilherme Cortez (275 mil votos), Professora Luciene Cavalcante (253 mil votos), Natália Boulos (114 mil votos) e a ex-ministra Sônia Guajajara (54 mil votos). Todos foram eleitos com sucesso.

Candidatos que não atingiram o mínimo exigido

Apesar da votação expressiva da federação, vários candidatos do PSOL e da Rede ficaram abaixo da marca de 33,8 mil votos. Raul Marcelo, que vinha a seguir na lista, recebeu aproximadamente 29 mil votos, ficando aquém do requisito mínimo. Juliano Medeiros, ex-presidente do PSOL, obteve cerca de 25 mil votos, enquanto Thiago Ávila, da Rede, conquistou aproximadamente 21 mil votos.

Essa situação ilustra uma característica importante da eleição proporcional: a votação massiva em alguns candidatos não compensa a votação insuficiente de outros. Erika Hilton, apesar de sua votação extraordinária, não conseguiu "transferir" votos para seus colegas. Cada candidato precisava conquistar seus votos de forma independente.

A diferença na federação do PT

A federação composta por PT, PCdoB e PV obteve um resultado distinto. Embora tenha acumulado menos votos totais que o PSOL-Rede (2,5 milhões contra 3 milhões), conseguiu eleger mais deputados. A razão está na distribuição de votos entre os candidatos: 13 integrantes da federação petista superaram os 90 mil votos, demonstrando uma base eleitoral mais dispersa e com múltiplos candidatos com votação individual expressiva.

A candidata mais votada do PT foi Luna Zarattini, que recebeu 233 mil votos, bem menos que Erika Hilton. No entanto, a presença de mais candidatos acima do piso eleitoral permitiu que a federação ocupasse 11 cadeiras em São Paulo, contra seis do PSOL-Rede.

A questão hipotética de uma federação PSOL-PT

Depois do resultado das eleições, surgiram especulações nas redes sociais sobre o que teria acontecido se o PSOL tivesse formado federação com o PT. Essa discussão chegou a ocorrer internamente no partido, mas foi rejeitada em votação. Especialistas em direito eleitoral alertam que essa análise é extremamente hipotética.

Segundo especialistas consultados, em uma federação única entre PSOL e PT, diversos fatores mudariam. A lista de candidatos seria única e limitada ao número total de vagas, as estratégias de campanha seriam completamente diferentes, e o comportamento do eleitorado provavelmente não permaneceria igual. Embora Erika Hilton pudesse ajudar o bloco unificado a conquistar cadeiras, não há garantia de que o PSOL especificamente elegeria mais deputados.

Como explica especialista em direito eleitoral, uma eventual federação PSOL-PT poderia ser simulada matematicamente, mas não garantiria, por si só, eleição de mais deputados exclusivamente para o PSOL. O resultado dependeria da composição específica dessa aliança e de como os votos se distribuiriam entre os candidatos da chapa conjunta.

As sobras eleitorais e a redistribuição de cadeiras

Quando um partido ou federação não consegue preencher todas as cadeiras que lhe foram atribuídas inicialmente por falta de candidatos com votação suficiente, essas vagas entram em disputa nas chamadas "sobras eleitorais". Essas cadeiras não permanecem reservadas ao grupo original, mas são redistribuídas entre todos os partidos e federações que cumprem os requisitos legais, utilizando o sistema de maiores médias.

Nesse cálculo de maiores médias, a votação total de cada grupo é dividida pelo número de cadeiras já conquistadas acrescido de uma unidade. Quem obtiver a maior média e atender às exigências legais recebe a próxima vaga. O processo se repete até que todas as 70 cadeiras de São Paulo sejam preenchidas. Portanto, as vagas que o PSOL-Rede não conseguiu preencher não foram simplesmente transferidas para outro partido, mas retornaram à disputa aberta entre todas as legendas.

Conclusão: entendendo o sistema

O resultado das eleições em São Paulo, onde o PSOL conquistou mais votos mas menos cadeiras que o PT, não representa uma falha do sistema, mas uma característica da eleição proporcional brasileira. A exigência de que cada candidato atinja um piso individual de votos garante que os eleitos tenham uma base eleitoral significativa, evitando pulverização extrema de representação.

A votação extraordinária de Erika Hilton foi notável e histórica, mas não pôde substituir os votos individuais que seus colegas de chapa precisavam conquistar separadamente para ocupar mandatos. Essa dinâmica revela a complexidade e as nuances do sistema eleitoral proporcional, mostrando que nem sempre mais votos totais garantem mais cadeiras conquistadas.

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