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Trump quer mudar nome da IA para superinteligência; entenda por quê

Trump quer mudar nome da IA para superinteligência; entenda por quê
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A Proposta Polêmica de Trump sobre Superinteligência

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem concentrado seus esforços recentes em uma questão que poucos esperavam: mudar o nome da inteligência artificial para superinteligência. Durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU no mês passado, Trump afirmou que "o termo inteligência artificial faz soar como se fosse algo falso e inferior". Desde então, o líder americano tem insistido que todos os documentos dos EUA e, idealmente, do mundo inteiro, adotem a nomenclatura superinteligência em lugar do tradicional termo IA.

Como Tudo Começou: As Enquetes na Truth Social

Antes de se decidir definitivamente pela palavra superinteligência, Trump abriu uma enquete em sua rede social, a Truth Social, apresentando alternativas como "Inteligência Superior", "Inteligência Extrema" e "Inteligência Suprema". Dias depois, realizou uma segunda votação, desta vez oferecendo apenas "Superinteligência" e "Inteligência Superior" como opções. Curiosamente, Trump não explicou em nenhum momento como essa alteração seria implementada ou se o setor tecnológico estava alinhado com sua proposta.

A situação se intensificou quando Trump declarou que passaria a considerar como "inimigo" qualquer pessoa que continuasse usando o termo "inteligência artificial" em vez de superinteligência. Essa postura polarizada causou reações diversas na comunidade científica e tecnológica internacional.

O Contexto Histórico: Setenta Anos de IA

Para compreender a magnitude dessa proposta, é necessário retroceder na história. O conceito de inteligência artificial não é recente; existe há mais de 70 anos e já está profundamente enraizado na vida cotidiana através de aplicações como reconhecimento facial em bancos, carros semiautônomos, drones e câmeras de smartphones.

O termo inteligência artificial foi formalmente definido em meados de 1955, nos Estados Unidos, graças ao trabalho colaborativo de pesquisadores como John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester. Esses cientistas, oriundos de disciplinas variadas como engenharia, matemática e estatística, buscavam criar uma nomenclatura adequada para suas pesquisas sobre máquinas capazes de demonstrar raciocínio semelhante ao humano.

Contudo, as investigações sobre máquinas pensantes remontam a períodos anteriores. Entre as décadas de 1940 e 1950, o matemático Alan Turing já explorava essa possibilidade. Em 1948, Norbert Wiener cunhou o termo "cibernética" para designar sistemas que utilizavam informações sobre suas próprias ações para autorregulação. Foi nesse cenário que McCarthy criou a expressão inteligência artificial, buscando diferenciar esse campo da cibernética ao enfatizar o raciocínio e a autonomia das máquinas.

Perspectivas de Especialistas sobre a Proposta

Anderson Soares, considerado o brasileiro mais influente em inteligência artificial e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, questiona a viabilidade da proposta. Segundo ele, o próprio conceito de inteligência carece de uma definição precisa nas ciências biológicas, naturais e tecnológicas. "O que chamamos hoje de inteligência artificial está relacionado à capacidade das máquinas de realizar tarefas que associamos à inteligência humana", explica Soares.

Para o especialista, a motivação de Trump parece ser mais política do que construtiva. "O objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe na questão de paralisar o desenvolvimento da IA. Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo e que contribua para o que está acontecendo em termos de desenvolvimento", afirma.

Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco e especialista em inteligência artificial, também analisa criticamente o discurso de Trump na ONU. Ele observa que o presidente declarou "bem-vindos ao novo mundo da superinteligência" e depois completou com "vamos ver se isso vai dar certo", revelando, segundo Zanchettin, uma jogada de marketing sem efeito prático.

A Questão da Soberania Tecnológica

Allan Pscheidt, professor e pesquisador especializado em tecnologia, oferece outra perspectiva. Ele sugere que a proposta de Trump não visa alterar a definição científica ou técnica da superinteligência, mas sim demonstrar o poder e a soberania dos Estados Unidos no cenário internacional de inteligência artificial. "Estamos vivendo algo parecido com o que aconteceu na corrida para a Lua e na corrida espacial. Estamos passando agora para a corrida pela AGI, a Inteligência Artificial Geral", comenta Pscheidt.

Segundo Pscheidt, ao propor o termo superinteligência, Trump estaria sinalizando ao mundo que os EUA atingirão a AGI em breve, demonstrando assim sua supremacia tecnológica. Vale ressaltar que a AGI refere-se a uma forma de inteligência artificial capaz de realizar uma vasta gama de tarefas intelectuais em nível semelhante ou superior ao dos seres humanos. Até o presente momento, não existem comprovações científicas de que uma superinteligência já tenha sido alcançada.

Impactos Potenciais na Percepção Pública

Zanchettin destaca um aspecto crucial frequentemente negligenciado: o impacto psicológico nos consumidores. Dado que grande parte da população ainda possui conhecimento limitado sobre tecnologia, produtos rotulados como IA já enfrentam certa rejeição ou receio no mercado. "Introduzir um termo como superinteligência ou inteligência suprema pode soar como uma ameaça aos humanos e aumentar a rejeição do público", adverte o professor.

As pesquisas corroboram essa preocupação. Mais de metade dos brasileiros (52%) afirmam estar mais preocupados do que animados com os avanços da superinteligência, de acordo com recente levantamento do Pew Research Center. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais acentuada: cerca de nove em cada dez americanos dizem estar mais preocupados do que animados com a possibilidade de a inteligência artificial um dia superar a inteligência humana, conforme pesquisa da CNN divulgada em setembro.

A Evolução Contínua da Tecnologia

Ao longo das décadas, a inteligência artificial evoluiu significativamente. Com a popularização e o avanço da tecnologia, a IA passou a integrar o quotidiano das pessoas através de inúmeras aplicações. Mais recentemente, a partir de 2017, ganhou força a IA generativa, responsável pelo surgimento de ferramentas revolucionárias como ChatGPT, capazes de criar textos, imagens, vídeos e músicas.

Anderson Soares oferece uma perspectiva histórica sobre esse processo: "As ondas tecnológicas costumam passar por fases relativamente previsíveis: primeiro provocam medo e desconfiança; depois vêm a aceitação e o encantamento; e, com o tempo, a tecnologia passa a ser compreendida e deixa de parecer algo extraordinário". Nesse contexto, renomear a superinteligência poderia, paradoxalmente, atrasar essa compreensão natural do público.

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