Propostas econômicas dos candidatos: compare 5 temas-chave

Propostas econômicas dos candidatos: desafios centrais para o Brasil
As propostas econômicas dos candidatos à Presidência refletem visões distintas sobre como enfrentar os principais desafios da economia brasileira. A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) apresentam caminhos diferentes para lidar com questões que afetam diretamente o governo, as empresas e o bolso dos brasileiros. Entre os temas que estarão na mesa do próximo presidente estão o equilíbrio das contas públicas, os juros, o endividamento das famílias, o crescimento econômico e a produtividade.
O próximo chefe do Executivo federal herdará uma situação econômica complexa. A dívida pública alcançou 82,9% do PIB, ou R$ 11,05 trilhões, o maior nível desde março de 2021. Os juros da Selic estão em 13,75% ao ano, após cinco cortes realizados pelo Banco Central em 2026. A inflação continua acima da meta de 3%, com o IPCA acumulando 4,22% em 12 meses até agosto. Além disso, 82% dos consumidores tinham algum tipo de dívida a vencer em julho, conforme a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), marcando o maior nível da série histórica da entidade.
Bets e apostas online: caminhos divergentes
As apostas online tornaram-se tema de debate após o governo Lula anunciar, em setembro, uma medida provisória para proibir apostas de quota fixa, jogos online e cassinos virtuais. Segundo estudo do Comsefaz, as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias em 2025. O governo arrecadou R$ 15,3 bilhões em impostos sobre as bets desde o início daquele ano.
As propostas dos candidatos variam significativamente. Lula defende mecanismos de controle do endividamento associado às apostas, regras mais rígidas para concessão de crédito e ampliação do atendimento em saúde mental para pessoas afetadas por jogos. Ronaldo Caiado propõe regras ainda mais rígidas, incluindo proibição de publicidade de apostas em meios de comunicação de massa e redes sociais, teto para gastos dos apostadores e combate a plataformas ilegais. Flávio Bolsonaro prefere focar em proibir o uso de recursos de programas sociais em apostas e campanhas de conscientização pela Caixa. Augusto Cury não cita diretamente bets em seu plano, concentrando-se em dependência digital e programas de cidadania digital nas escolas. Romeu Zema também não menciona apostas online em seu programa.
Dívida pública e orçamento: prioridade fiscal
O equilíbrio das contas públicas é central para todos os candidatos, embora com abordagens distintas. Em agosto, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 10 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto, o déficit chegou a R$ 88,9 bilhões. Considerando os juros da dívida, o déficit alcançou R$ 1,26 trilhão nos 12 meses até agosto, equivalente a 9,48% do PIB, com juros somando R$ 1,18 trilhão.
Lula defende manter o Novo Arcabouço Fiscal, que estabelece regras para o crescimento dos gastos públicos, mas preservar recursos para saúde, educação e programas de proteção social. Também propõe melhorar a eficiência dos gastos, revisar benefícios fiscais e aumentar a tributação sobre os mais ricos. Romeu Zema, por sua vez, propõe uma ampla redução das despesas do governo, com reforma da Previdência, contenção do crescimento das despesas obrigatórias e privatização de empresas estatais. Ronaldo Caiado defende um plano de longo prazo para estabilizar a dívida sem aumentar impostos ou fazer cortes lineares. Flávio Bolsonaro propõe mudar as regras fiscais para estabilizar e reduzir a dívida em relação ao tamanho da economia. Augusto Cury sugere reduzir o déficit até próximo de zero e utilizar inteligência artificial para encontrar fraudes e desperdícios. Renan Santos, candidato do Partido Missão, critica o Novo Arcabouço Fiscal e propõe uma PEC de Equilíbrio Fiscal com economia projetada de R$ 1,1 trilhão até 2031.
Endividamento das famílias: combate à crise de crédito
O endividamento recorde das famílias representa um obstáculo significativo ao crescimento econômico. A taxa média de inadimplência nas operações de crédito subiu de 4,9% para 5% entre julho e agosto, segundo o Banco Central do Brasil, atingindo o maior nível da série histórica revisada desde março de 2011. O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu o maior patamar da série histórica, afetando diretamente o consumo, que representa cerca de 63% do PIB.
Lula aposta na renegociação de dívidas por programas como Desenrola Brasil, Novo Desenrola e Desenrola Pequenos Negócios, além de defender regras de concessão responsável de crédito e condições para uma queda sustentada dos juros. Augusto Cury propõe criar o Banco do Empreendedor, com microcrédito de R$ 2 mil a R$ 20 mil e juros de 5% a 6% ao ano. Flávio Bolsonaro prevê o programa Ganha-Ganha, orientação financeira pela Caixa e renegociação de dívidas para mulheres. Ronaldo Caiado associa o custo elevado do crédito à situação das contas públicas e propõe um Crédito Social Acompanhado para pequenos empreendedores. Romeu Zema propõe facilitar a renegociação e portabilidade de dívidas pelo Open Finance e modernizar as garantias de crédito.
Comércio exterior e terras raras em contexto de tarifas
As barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos alteraram o cenário do comércio exterior brasileiro. Em julho, o governo de Donald Trump aplicou sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parte dos produtos brasileiros, chegando a 37,5% em alguns casos. Nesse contexto, ganhou relevância a discussão sobre terras raras, grupo de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias como celulares, veículos elétricos e turbinas eólicas. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, enquanto a China domina cerca de 70% da produção global.
Lula defende o Plano Brasil Soberano para reduzir os impactos das barreiras comerciais e apoiar empresas afetadas, além de buscar novos mercados e aumentar a exportação de produtos com maior valor agregado. Ronaldo Caiado propõe manter relações comerciais com diferentes países e processar minerais estratégicos no país antes de vendê-los ao exterior. Flávio Bolsonaro defende estreitar relações comerciais com EUA, Argentina e Israel, sem deixar de negociar com China e União Europeia. Romeu Zema propõe a saída do Brasil dos BRICS, mantendo relações comerciais com os países do bloco, e transformar o Mercosul em zona de livre comércio. Augusto Cury propõe reduzir a burocracia para exportadores e criar corredores para facilitar o transporte de produtos. Renan Santos defende uma política externa pragmática e a criação de Zonas Econômicas Especiais.
Inflação e juros: conectores da política econômica
A taxa de juros conecta praticamente todos os temas econômicos. A Selic está em 13,75% ao ano, após cinco cortes realizados em 2026. O mercado financeiro espera mais uma redução para 13,50% no fim do ano, mas a taxa ainda é considerada elevada. A inflação continua acima da meta de 3%, com o IPCA acumulando 4,22% em 12 meses até agosto.
Lula defende a manutenção do Novo Arcabouço Fiscal e medidas que criem condições para redução dos juros ao longo do tempo, além de aumentar a produtividade da indústria e ampliar a produção de energia limpa. Flávio Bolsonaro relaciona inflação e juros altos ao aumento dos gastos e da dívida do governo, propondo mudar as regras fiscais e reduzir impostos sobre combustíveis. Romeu Zema propõe controlar a dívida pública e manter superávits nas contas do governo para criar condições para queda sustentada dos juros, além de reduzir gradualmente o IOF e diminuir subsídios. Ronaldo Caiado defende uma atuação coordenada entre políticas de controle das contas públicas e de juros. Augusto Cury defende manter as contas públicas equilibradas e oferecer empréstimos pequenos com juros de 5% a 6% ao ano. Renan Santos relaciona o aumento da dívida e uma política fiscal expansionista à pressão sobre inflação e manutenção dos juros elevados.
As próximas eleições determinarão o rumo da política econômica brasileira. O próximo presidente herdará desafios complexos e deverá implementar medidas que conectem questões fiscais, juros, investimento, produtividade e renda para determinar o crescimento sustentável do Brasil nos próximos anos.
