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Chilena desaparecida na ditadura Pinochet é encontrada viva na Argentina

Chilena desaparecida na ditadura Pinochet é encontrada viva na Argentina
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Uma história de cinco décadas de desaparecimento que termina em vida

Bernarda Rosalba Vera Contardo é uma chilena desaparecida na era Pinochet que, surpreendentemente, continua viva. Durante mais de cinquenta anos, acreditou-se que ela havia sido executada pelas forças militares no início da ditadura chilena, mas investigações recentes comprovaram que a mulher, agora com 80 anos, reside na Argentina há décadas e construiu uma vida longe dos holofotes públicos.

O caso desta chilena desaparecida na era Pinochet representa um dos episódios mais intrigantes relacionados às violações de direitos humanos ocorridas durante o regime autoritário. A emissora Chilevisión localizou Vera em um balneário de Miramar, ao sul de Buenos Aires, em meados de 2024, revelando uma narrativa que desafia a história oficial registrada há décadas nos arquivos judiciais chilenos.

Os primeiros passos de uma vida de militância política

Em 1973, quando o golpe de Estado ocorreu no Chile, Bernarda Vera tinha apenas 27 anos de idade. Ela exercia a profissão de professora em uma escola pública localizada em Puerto Fuy, no Complexo Madeireiro e Florestal Panguipulli, na região de Los Ríos, no extremo sul do país. Seu envolvimento político era profundo e comprometido, participando ativamente tanto do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) quanto do Movimento Camponês Revolucionário (MCR).

Vera era uma mulher de convicções firmes, dedicada à causa revolucionária. Ela havia se casado e tinha uma filha de cinco anos quando os eventos que mudaram sua vida ocorreram no mês de outubro de 1973, logo após o golpe militar que levaria Augusto Pinochet ao poder por quase duas décadas.

O registro oficial do desaparecimento

A Comissão da Verdade e Reconciliação, formada em 1990 durante o governo de Patricio Aylwin, recebeu testemunhos dos pais de Bernarda Vera relatando o desaparecimento de sua filha. O Relatório Rettig, publicado em 1991, incluiu Vera entre as 1.469 vítimas de desaparecimento forçado documentadas durante a ditadura chilena, que deixou aproximadamente 40 mil vítimas entre desaparecidos, execuções ilegais, torturados e prisioneiros políticos.

Segundo o relatório oficial, Vera teria sido detida por militares no dia 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na região pré-andina do sul chileno. O documento afirmava que ela havia sido supostamente executada junto com outras 15 pessoas na ponte de Villarrica, sobre o rio Toltén, com seus corpos posteriormente lançados à água. Durante 35 anos, este relato permaneceu como a versão oficial de seu destino.

A versão alternativa que resurge das montanhas

Testemunhas presentes na época forneceram relatos significativamente diferentes sobre o que realmente aconteceu com Bernarda Vera. José Manuel Bravo, companheiro de militância no MIR, deixou registros no Museu de Neltume descrevendo como um grande grupo de pessoas conseguiu escapar das operações militares em outubro de 1973, fugindo para as montanhas circundantes.

Segundo Bravo, Bernarda Vera, cujo pseudônimo na organização era "Anita", estava entre os fugitivos. Ele a descreveu como uma mulher magra, mas com uma vitalidade notável que lhe permitia suportar as dificuldades de viver nas montanhas enquanto evitava a perseguição militar. No livro "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia", publicado em 2012, Bravo revelou que permaneceu ao lado de Vera nas montanhas até dezembro de 1973, dois meses após sua suposta detenção.

A fuga clandestina e reconstrução da vida

Acredita-se que Bernarda Vera conseguiu escapar clandestinamente do Chile para a Argentina por volta do final de 1973, com assistência de Svante Grände, um membro sueco do MIR. Após um período na Argentina, ela saiu do país com um marido argentino e um filho recém-nascido rumo à Suécia, onde recebeu seu primeiro visto e autorização de residência em 1978.

Na Suécia, Vera construiu uma vida estável e discreta. Teve mais dois filhos e obteve a nacionalidade sueca em 1984. No final dos anos 1990, ela retornou à Argentina, instalando-se na província de Buenos Aires, onde permaneceu durante os anos seguintes, longe do conhecimento de suas antigas conexões políticas e de sua família biológica no Chile.

A confirmação científica após cinco décadas

O ministro extraordinário chileno para causas relacionadas aos direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre, ordenou um relatório pericial de DNA que confirmaria definitivamente a identidade de Bernarda Vera. Os antecedentes científicos, correspondentes ao perfil genético e às amostras de seus familiares disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile, determinaram uma probabilidade de identificação superior a 99,9999%.

O teste de DNA foi realizado por meio de um tribunal de Mar del Plata, na Argentina, após Vera ter concordado em se submeter ao procedimento. A análise científica confirmou que a mulher encontrada em Miramar era, de fato, a mesma pessoa que havia desaparecido durante a ditadura chilena meio século antes.

O reencontro com a filha e as repercussões emocionais

A filha que Bernarda Vera deixou no Chile em 1973 tinha apenas cinco anos de idade naquela época. Agora com 58 anos, ela não soube que sua mãe estava viva durante todo esse período. Quando a equipe de reportagem da Chilevisión entrou em contato para informar sobre a descoberta, a filha manifestou incredulidade absoluta.

A jornalista Florencia Valenzuela, que realizou a investigação, relatou à BBC News Mundo as dificuldades emocionais do encontro: a filha tinha certeza de que, se sua mãe estivesse realmente viva, teria entrado em contato com ela. O ministro Álvaro Mesa confirmou pessoalmente à filha, no dia 27 de julho, o resultado positivo do teste de DNA.

O desejo de privacidade

Bernarda Vera conseguiu evitar as câmeras quando as equipes de imprensa localizaram sua residência. Seu filho Maximiliano conversou com os jornalistas e transmitiu a mensagem clara de que sua mãe deseja viver em paz, longe da exposição pública. Segundo ele, Vera sempre imaginou que este momento chegaria, mas agora busca continuar a vida discreta que construiu ao longo de cinco décadas.

As implicações legais e políticas do caso

A confirmação de que Bernarda Vera não é uma prisioneira desaparecida gerou consequências legais significativas. Membros da direita chilena, incluindo deputados apoiadores do presidente José Antonio Kast, pediram uma investigação para determinar se houve configuração de delitos e se fundos de reparação foram recebidos indevidamente.

A mãe de Vera recebeu em vida uma pensão de reparação como familiar de uma vítima de violações de direitos humanos, e sua filha também recebe benefícios sociais em razão de incapacidade. Agora, o Estado chileno busca recuperar esses recursos e identificar os responsáveis por qualquer má-fé na administração desses fundos.

As investigações e responsabilidades administrativas

A ação judicial sobre o desaparecimento de Bernarda Vera foi aberta em 2009, quando o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior apresentou uma queixa formal. O processo foi temporariamente arquivado em 2014 devido à impossibilidade de comprovar as circunstâncias específicas do desaparecimento.

Em 2025, o Plano Nacional de Busca, uma iniciativa do governo de Gabriel Boric voltada para descobrir o destino dos prisioneiros desaparecidos, entrou em contato com a filha de Vera após constatar incongruências evidentes no caso. Sandro Gaete, ex-policial que participou do Plano de Busca, renunciou e denunciou que as autoridades governamentais tiveram conhecimento de evidências em 2024 sem as reportar à Justiça, apesar de o Estado chileno contar com informações que remontavam a 2007.

O legado e as questões em aberto

O caso de Bernarda Vera permanece como um dos episódios mais complexos relacionados aos crimes da ditadura chilena. Enquanto a confirmação de sua sobrevivência oferece alguma resposta após cinco décadas, muitas perguntas continuam sem resposta, particularmente quanto aos motivos pelos quais Vera manteve silêncio absoluto sobre sua existência e sua família no Chile.

O governo chileno atual informou que solicitará investigações sumárias para determinar eventuais responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para a adoção de ações judiciais apropriadas. O caso reabriu debates sobre a precisão histórica dos registros da Comissão da Verdade e Reconciliação e sobre os procedimentos de verificação adotados pelas autoridades chilenas na documentação das vítimas do regime autoritário.

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