A literatura sempre foi considerada uma das formas mais expressivas de arte e de preservação cultural. Através de histórias, contos e poemas, é possível conhecer diferentes culturas e tradições, além de criar vínculos com seus personagens e narrativas. No entanto, a oralidade também desempenha um papel crucial nesse processo. E é exatamente sobre essa relação entre oralidade e literatura que a escritora indígena Marcely Soriano nos chama atenção.
Em uma entrevista, Marcely afirmou que “oralidade e literatura são como duas palhas que se unem para trançar o mesmo cesto”. Essa metáfora nos leva a refletir sobre a importância da oralidade na construção e preservação da literatura. Afinal, a escrita só foi possível após a oralidade ser consolidada como forma de expressão e comunicação.
Desde os primórdios da humanidade, a oralidade tem sido a principal forma de contar histórias e transmitir conhecimentos. Nas comunidades indígenas, por exemplo, essa tradição é passada de geração em geração, mantendo vivo o conhecimento e a cultura de seu povo. São nas rodas de conversa, nos rituais e nas manifestações culturais que a oralidade é valorizada e preservada.
No entanto, muitas vezes a oralidade é vista como uma forma inferior de expressão, em comparação à escrita. Mas, para Marcely, isso não é verdade. A autora defende que “a oralidade é poderosa, é viva, é criativa”. E ela tem toda razão. A oralidade é responsável por manter vivas as histórias e tradições de um povo, e é através dela que a literatura se torna rica e diversificada.
Além disso, a oralidade permite que a literatura alcance um público mais amplo e diversificado, especialmente nas comunidades indígenas, onde a maioria da população não sabe ler ou escrever. Através da oralidade, essas histórias são transmitidas e perpetuadas, mantendo viva a cultura e a identidade desses povos.
Com o avanço da tecnologia e a facilidade de acesso à informação, a oralidade tem sido cada vez mais esquecida e desvalorizada. No entanto, é importante ressaltar que a literatura e a oralidade não são excludentes, pelo contrário, elas se complementam e se fortalecem mutuamente.
Marcely Soriano é um exemplo inspirador de como a oralidade pode ser utilizada como forma de resistência e preservação cultural. Sua obra “Flor do Dia”, publicada em 2018, é resultado de histórias ouvidas pela escritora em suas viagens por aldeias indígenas do Mato Grosso do Sul. O livro traz uma coletânea de contos e lendas que retratam a cultura dos povos Guarani e Kaiowá, e representa uma importante contribuição para a literatura indígena brasileira.
Além disso, Marcely também é fundadora do projeto “Cantos e Contos”, que tem como objetivo valorizar e difundir a oralidade indígena, por meio de apresentações teatrais e contação de histórias. O projeto já alcançou mais de 20 mil crianças em escolas públicas e privadas da cidade de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.
É importante destacar que a literatura indígena tem ganhado cada vez mais espaço e reconhecimento na sociedade brasileira. Nomes como Daniel Munduruku, Eliane Potiguara e Aline Cristina Manesco estão entre os autores que, assim como Marcely Soriano, contribuem para valorizar a cultura e a literatura indígena.
Em suma, a oralidade e a literatura são duas formas de expressão que se completam e se fortalecem, e é preciso valorizar e preservá-las
